sábado, 9 de fevereiro de 2019

GUSTAVO BARROSO e o INTEGRALISMO*


Sérgio de Vasconcellos

O Integralismo foi oficialmente fundado em 07 de Outubro de 1932, data em que foi divulgado o “Manifesto de Outubro”. Não abordarei a gênese da redação desse Documento – o mais importante da História do Brasil republicano – pois, disso tratei em outro lugar[1]. Importante ponto, de que também não tratarei esta tarde, mas, que é bom destacar mesmo assim, é o de que as Idéias Integralistas do Manifesto já estavam todas presentes em Escritos anteriores de Plínio Salgado[2].
Aqui, reunidos para Homenagear o Chefe Nacional Plínio Salgado, vou, paradoxalmente, falar sobre... Gustavo Barroso. Ainda sob a impressão da Homenagem recentemente prestada pela ACCALE – Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella -, no Rio de Janeiro, por conta dos 130 anos de nascimento do Autor de “Brasil – Colônia de Banqueiros”, onde, apesar de orador principal, minha palestra ficou muito aquém do que eu queria e do que merecia Gustavo Barroso, não consegui me desvencilhar da certeza que estava devendo aos Integralistas algo mais substancial sobre a Vida e a Obra de João do Norte. Evidentemente, não seria esta a ocasião, numa Homenagem ao Chefe, o lugar e o momento apropriados para estender-me sobre aquele que continua sendo o segundo teórico do nosso Movimento, o que não fui capaz de fazer a altura na Solenidade de 15 de Dezembro de 2018, dedicada a sua Memória. Vou me limitar a expor algumas opiniões, ou, pontos de vista, se preferirem, de Gustavo Barroso sobre Plínio Salgado e o Integralismo.
O ingresso de Gustavo Barroso no Integralismo, já o narrei anteriormente[3], e não vou reapresentá-lo. Assinalarei, no entanto, que o encontro histórico de Barroso com o Sigma teve dois momentos: Primeiro, o teórico, quando, em fins de 1932, Ovídio Cunha entregou-lhe um exemplar do Manifesto; o segundo, impelido  pelo que lera no Documento de Fundação do Integralismo, ao comparecer, no início de 1933, a uma Conferência de Plínio Salgado, no Rio de Janeiro. No primeiro momento abraça a Doutrina da qual foi adepto até o final de sua vida; no segundo, inicia uma sólida amizade com Plínio Salgado, que se prolongou ininterruptamente até a Transferência de Barroso para a Milícia do Além, e uma admiração irrestrita pelo Autor de “A Quarta Humanidade”.
O ínclito Gustavo Barroso escreveu uma dúzia de Livros Integralistas e um incalculável número de Artigos, proferiu incontáveis Palestras e Conferências. Vou basear-me nos Livros – e não exaustivamente -, pois, o levantamento completo de seus Discursos, Palestras, Conferências e Entrevistas ainda está por ser feito.
A filiação de Gustavo Barroso ao Integralismo foi um momento existencialmente enriquecedor. Estando na culminância de sua fama, nacional e internacional, e  julgando mesmo estar numa etapa derradeira, “do meio do caminho da minha vida”, “antes de descer a ladeira sombria da montanha a que trabalhosamente subi”, como ele mesmo disse[4], o Integralismo vai permitir-lhe iniciar um novo período em sua história pessoal. Para o Integralismo em si, também foi enriquecedor, pois a adesão de Barroso repercutiu em todo o Brasil e no exterior.
Sem exagero, afirmo que Barroso não se fez Integralista, ele se descobriu Integralista. Toda a nossa Doutrina já estava latente em seu interior, esperando sair à superfície. Foi o choque provocado pela leitura do Manifesto de Outubro que permitiu o desabrochar daquele Ideal latente, e que estava em perfeita sintonia com o Pensamento Magistral de Plínio Salgado.
Aliás, um dos aspectos mais notáveis da Doutrina Integralista, desde os textos iniciais de Plínio Salgado e demais próceres do Movimento, passando por todas as décadas até nossos dias, é a uniformidade doutrinária. O que diziam Plínio Salgado, Barroso, Reale, Tasso da Silveira, etc., nos anos 30; Gumercindo Rocha Dorea, Helio Rocha, Ibsen Marques e outros da Geração Águia Branca, e o que está pregando na atualidade esta fantástica floração de novos Intelectuais do Sigma, tendo a frente o brilhante Companheiro Victor Emanuel Vilela Barbuy, é o mesmíssimo conjunto de Idéias, a mesma teoria social política e econômica, a mesma Filosofia e Método. Todos os que já tiveram o prazer de compulsar mais atentamente a nossa Literatura, têm plena certeza da Coerência do Pensamento Revolucionário Integralista.
Todavia,  para a cabal e definitiva demonstração do que afirmo, far-se-ia necessário a elaboração de um trabalho que bem poderia denominar-se, por exemplo, “Concordância Integralista”, onde, através do cotejo e colação dos Autores Integralistas, ficaria provado que todos estão propondo a mesma Idéia, a Idéia Integralista. Lamentavelmente, ultrapassaria muito os estreitos limites desta palestra uma tal empreitada. Permanecerei naquilo que propus inicialmente, isto é, expor os pontos de vista de Barroso sobre Plínio Salgado e o Integralismo.
Barroso emprestava tal importância ao Manifesto de Outubro, que o reproduz no seu clássico “O que o Integralista deve saber”, antecedendo-o das seguintes palavras:
“Esse movimento de idéias destinado a realizar no Brasil novo Estado, nova Ordem Social, de acordo com as realidades nacionais, foi publicamente lançado em S. Paulo, no mês de outubro de 1932, por Plínio Salgado, num Manifesto hoje célebre, que nenhum Integralista deve ignorar.
“Terminara, então, a revolução chamada constitucionalista. O sangue duma heróica mocidade ainda fumegava na terra úmida das trincheiras. Daquele grande sacrifício alguma coisa de novo devia brotar. De novo e grande.
“Justa reação contra a indiferença e o desânimo geral da Nação, esse Manifesto, sem partidarismo político e sem sectarismo religioso, marcou o primeiro passo duma Marcha Histórica para um Brasil mais forte, mais amado e mais respeitado, portanto para um Brasil Maior”[5].
Em outra Obra foi mais conciso: “O Integralismo Brasileiro nasceu com o Manifesto de Outubro de 1932, de Plínio Salgado, que de há muito vinha pregando suas idéias nacionalistas em São Paulo”[6].
Para que tenham uma nítida idéia dos móveis profundos de sua filiação ao Sigma ouçam o seguinte:
“O Integralismo é compreensão. Só quem compreende a doutrina integralista pode ser integralista consciente. Há muitos modos de compreendê-la. Há a compreensão pelo estudo de seus pontos básicos e a comparação com o liberalismo e o comunismo. Há a compreensão pela graça do sentimento. E há ainda, a maior compreensão, a compreensão pelo amor”[7].
E depois de parágrafos fantásticos, termina dizendo:
“Justamente por ser amor é que o Integralismo é construção. Somente quem ama é capaz de construir. O ódio é destruição. Reparai como nas épocas da decadência social, de materialização, de materialidade, toda a criação desaparece do cenário intelectual, em que unicamente florescem, se florescem, os cardeiros da crítica. O crítico analisa, disassocia, joeira, separa, divide, não produz, não reúne, não cria. Incapaz de organizar e de criar, esforça-se por demonstrar  que é capaz de esmiuçar defeitos e corrigir, para se apresentar capaz de alguma coisa. Quando as águias de Roma começaram a fechar as asas, apareceu um Luciano de Samosata. Quando se carregavam os canhões para a Grande Guerra, apareceu um Anatole France. E que faz toda essa barulhenta e vazia imprensa de hoje?
“Cria? Não. Critica tudo, critica todos, acaba criticando a si própria.
“O Integralismo é o amor pelo Brasil, o desejo de vê-lo grande, próspero, feliz, poderoso. É a criação dum sentido novo da vida para chegar a esse fim. E somente é possível essa criação pela educação e pelo ensino. Não é possível ensinar e educar, odiando. Ensina-se e educa-se, amando.
“Dentro do movimento integralista, portanto, o integralista não deve criticar, mas suprir. Suprir os defeitos dos companheiros. Suprir as falhas dos próprios chefes. Supri-las sem que os próprios supridos dêem por isso. No Integralismo, o movimento está acima dos indivíduos, as idéias sobrelevam as pessoas. Na sua profundes cristã, o seu amor não se personaliza: é amor ao próximo seja ele quem for”[8].
O Integralismo é compreensão e amor. Que teoria política, naquela época ou hoje, pode ser sintetizada por tal binômio? Só o Integralismo.  Radica-se aí a irrestrita admiração de Gustavo Barroso por Plínio Salgado, manifestada em diversas ocasiões, como, por exemplo, na dedicatória de “A Palavra e o Pensamento Integralista”: “A Plínio Salgado, Chefe e Amigo, admiração!”[9].
E nesse mesmo livro, o Chefe das Milícias vai dizer:
“Como no dia do Riachuelo, aos ventos núncios de combates sem tréguas, palpitam e falam-vos novamente as bandeiras. Sobre a história do Brasil contemporâneo, Plínio Salgado arvorou um pavilhão que os brasileiros nunca tinham visto e que os encheu, a uns de ódio, a outros de admiração e de fé. Foi o pendão azul e branco marcado pelo Sigma. Agitado pela nervosa e ascética mão do Chefe Nacional, ele tremulou despertando as primeiras coortes de Camisas Verdes (...)”[10].
Ecoando as palavras do Chefe Nacional em “Sentido e Ritmo da Nossa Revolução”[11] e em “Técnica de Sorel e técnica de Cristo”[12], vai afirmar:
“Eis a razão do Sigma, que simboliza a somação, a integralização de tudo o que deva ser levado em conta para a organização natural da sociedade. E daí o que diz o Chefe Nacional e repetem os nossos doutrinadores: a nossa revolução é a maior de todas as revoluções, porque começa dentro de nós mesmos”[13].
“Pregando, segundo a palavra do Chefe Nacional, a técnica de Cristo em contraposição à técnica de Sorel, isto é, a Revolução Interior contra a Revolução Exterior, a Revolução Espiritual contra a Revolução unicamente Política ou Econômica, o Integralismo afirma o Amor”[14].
E vai dizer-nos peremptoriamente em outro de seus importantes livros:
“O grande filósofo Bunsen escrevia em pleno século XIX: “Somente os grandes espíritos são capazes de pregar a ordem moral nas épocas de escravidão política e de hipocrisia”. O Chefe Nacional  é, incontestavelmente, um grande espírito que prega essa Ordem Moral (...)”[15].
Comentando o famoso final do discurso que Plínio Salgado pronunciou diante das Cortes do Sigma (1937), que reproduziu no seu “Integralismo e Catolicismo”, diz taxativamente: “Somente um Grande Chefe  pode pronunciar tão grandes palavras! Grandes e raras nesta época de indefinições espirituais”[16]. E páginas adiante:
“O Integralismo é um Movimento cristão. Isto tem sido dito e repetido à saciedade pelo Chefe Nacional em discursos e artigos. Se assim é, o Integralismo tem suas bases filosóficas e morais na doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, nos Evangelhos.
“O Integralista, embora não seja católico e nem todos os integralistas são católicos, nem o Integralismo é um Movimento católico, porque não é um Movimento religioso, sim moral, social e político; o Integralista deve ler os Evangelhos e meditar sobre eles. Nas suas folhas milenárias, encontrará a esperança de melhores dias, o amor da virtude necessário à salvação da pátria, a consolação das agruras presentes, a paciência para suportar os golpes da adversidade e o ensinamento constante de todas as coisas.
“Tenho sempre presente na memória, e a maioria dos camisas verdes não o podem ter esquecido, aquele artigo em que, há tempos, o Chefe Nacional nos dizia as palavras do Horto: - orai e vigiai! Sim, o integralista precisa orar a Deus para que Ele se amerceie do nosso país invadido pela lepra da politicagem, tomado pelo materialismo, (...), manietado e corrompido pelo capitalismo internacional, (...), ameaçado pelo cataclisma da subversão comunista”[17].
Barroso, antecipando-se a uma discussão que está na moda na atualidade, insere o Integralismo naquilo que poderia se entender uma terceira posição:
“O liberalismo isolou o homem no individualismo e somente o considerou como cidadão eleitor. O comunismo submerge-o no oceano da massa e o transforma em parafuso com estômago e libido dum maquinismo social. O mundo inteiro sente a imprescindível necessidade duma síntese que combata essas análises unilaterais. No duelo travado entre burgueses e operários, os verdadeiros intelectuais entram com uma terceira forma de justiça social. Karl Marx não previu esse aspecto da luta de classes. Sua doutrina coordena os valores sociais dispersos e os canaliza para alto fim humano. Suas primeiras manifestações chamaram-se fascismo e nacional socialismo. Sua expressão mais completa chama-se integralismo”[18]. No entanto, sempre se colocando adiante do seu tempo – o que é uma característica Integralista – e, certamente, inspirado no “A Quarta Humanidade”, de Plínio Salgado[19], ele escreve o surpreendente “O Quarto Império”[20], no qual assegura-nos que: “O Chefe Nacional do Integralismo Brasileiro teve a intuição perfeita desse quarto estado social”[21]. Donde podemos concluir que, o Integralismo contem a terceira posição e a supera pela quarta, pela Quarta Humanidade ou pelo Quarto Império.
Gustavo Barroso atribui até mesmo qualidades quase proféticas a Plínio Salgado: “A voz do Chefe Nacional anunciou que diríamos uma palavra nova ao mundo. Nenhum integralista duvida que o que o Chefe diz se realiza; (...)”[22].
Não obstante essa admiração irrestrita por Plínio Salgado, que vimos documentando, Barroso, atento a própria lição do Chefe no célebre “Elogio da Ausência”[23], vai externar os limites em que se deve circunscrever a disciplina e a mística em torno do Chefe Nacional:
“O Integralismo exige um juramento de fidelidade e obediência à sua Doutrina encarnada no Chefe Nacional. “O Chefe – declara Plínio Salgado – não é uma pessoa, é uma idéia”. Essa idéia está consubstanciada num homem e não é possível defendê-lo com risco de sua própria vida sem um compromisso de honra expresso em juramento solene. Ele é básico para a nossa disciplina. Por ele nos comprometemos a sacrificar interesses, ambições e inclinações de ordem pessoal pelo êxito de uma grande causa. Nessas condições, como exigir obediência se não houver um compromisso voluntário de obedecer? Ele é a afirmação categórica do princípio de autoridade.
“Segundo a nossa fórmula, o Integralista jura “por Deus e por sua honra” trabalhar pela Ação Integralista Brasileira, executando, sem discutir, as ordens do Chefe e de seus superiores hierárquicos. Impossível será admitir que alguém entre em um movimento como o nosso sem se comprometer a dar-lhe seu esforço e cumprir o que lhe for ordenado em prol desse movimento. O principal no juramento integralista, como o Chefe já frisou de público, é trabalhar pela Ação Integralista Brasileira, não passando a execução das ordens de obrigação decorrente. (...)”. E, parágrafos adiante, acrescenta: “A Ação Integralista Brasileira não é um movimento de caráter religioso e sim um movimento sadio de renovação social e de organização política, limitado por diretrizes definidas. “No dia em que os Chefes Integralistas – escreveu Plínio Salgado – se afastarem dessas diretrizes, ninguém está obrigado a obedecer-lhes”. De fato, se o Chefe ordenar a um Integralista crente que abjure sua fé, que pratique atos contra a moral, é óbvio que nenhum juramento o força a obediência, visto como o Chefe teria faltado primeiro a seus compromissos e deveres os mais sagrados”[24].
E elucida mais ainda a questão em outra Obra:
“O Integralismo não faz plataforma. Ele apresenta um corpo de doutrina, declarando: entendo o universo desta forma, o homem desta, a sociedade desta, a economia desta, etc. Dessas minhas maneiras de entender essas coisas decorrem as organizações e os sistemas com que serão resolvidos os problemas atinentes a cada uma. Não vou resolver problemas para agradar eleitorados ou para cumprir promessas, porém vou resolvê-los, porque sua resolução resulta do meu modo de encará-los e compreendê-los.
“Esses problemas se impõem de há muito à consciência nacional. Não foram resolvidos,porque os observaram de pontos de vista falsos, quer só teoricamente, quer só pragmaticamente. O Integralismo os aprecia dum ponto de vista fundamental, doutrinário, profundo. E eis porque os poderá resolver na verticalidade, enquanto o liberalismo se perdia na horizontalidade.
“Dessa atitude nova – destemor, fé, afirmação; dessa doutrina nova - princípios, meios, finalidades definidas para o Homem e para o Estado, naturalmente resulta uma mística política, que envolve a pessoa do Chefe Nacional e a aureola.
“É preciso compreender essa mística para não confundi-la com uma espécie de fanatismo ou sectarismo impregnado de qualquer tônus religioso. O Chefe é humano, cheio de defeitos e de erros como qualquer homem, mas ele encarna, como chefe, a idéia que gerou o movimento. O misticismo que se projeta sobre a sua pessoa visível visa a idéia invisível. Ele não é o fundador de religião, mas o criador de uma nova concepção social e política. Fundador de religião, a palavra de Deus ecoaria pela sua boca e uma parcela do divino poder por ele se transmitiria. Criador duma concepção social e política, exprime a realidade nacional através do seu gênio. É a força dessa concepção que gera a mística integralista”[25].
A adesão de Barroso é tão radical, que ele o vai dizer sem ambigüidades: “Estou dentro da Doutrina e da Palavra do Chefe Nacional. Et nunc, et semper!”[26].
E deixa-nos um alerta, muito atual para os nossos dias:
“Nós surgimos à voz de Plínio Salgado, com o Manifesto de Outubro, com uma nova consciência da Pátria despertada por uma nova filosofia da história e informada nos princípios fundamentais da civilização cristã.
“É preciso, pois, que os Camisas Verdes  se não deixem levar por maviosos cantos de sereias e saibam conscientemente que a Revolução Integralista é nossa, unicamente nossa, nem reproduzindo, nem se encadeando a outras revoluções de ruas, de quartéis, de navios, de partidos, de ambições individuais, de grupos econômicos, de sindicatos financeiros ou de corrilhos políticos”[27].
No início sustentei que Barroso aderira ao Movimento porque ficara vivamente impressionado pelo conteúdo do Manifesto de Outubro. Como prova cabal, lerei, a seguir, trechos de um capítulo chamado “Doutrina” de suas “Reflexões de um Bode”:
“O Integralismo repousa doutrinariamente no Manifesto de Outubro. Quanto mais se lê, mais se examina e mais se esmiúça esse magnífico documento fundamental, mais riqueza doutrinária nele se encontra sintetizada. É a semente maravilhosa de toda a floração da doutrina integralista. E forçoso é reconhecer no seu autor, Plínio Salgado, uma inspiração providencial.
“Na pureza de sua doutrina, reside toda a força do Integralismo. Um movimento de tamanha amplitude espiritual como o nosso, de tamanha projeção social e geográfica, retira de sua pureza doutrinária a sua unidade, isto é, a sua consciência coletiva. Desde que qualquer uma das folhas duma árvore deixa, por um defeito funcional qualquer, de receber a seiva vivificadora pura ou a recebe eivada de quaisquer substâncias envenenadoras, murcha, amarelece e cai, indo apodrecer no abandono e no anonimato. É o que ocorre no movimento integralista com todos aqueles que se afastam da pureza da doutrina: terão o fim lastimável das folhas secas.
“(...)
 “Em luta constante contra o individualismo liberal e todas as forças anti-nacionais e anti-cristãs, o Integralismo naturalmente tem de estar alicerçado na rocha firme de sua doutrina, consubstanciada no Manifesto de Outubro e sintetizada unicamente na pessoa do Chefe Nacional. Condenando as mentiras demo-liberais e marxistas, o Integralismo pretende realizar uma Ordem Social e Política hierarquizada, do Município à Nação, uma Democracia Orgânica, Harmônica e Racional, como diria Santo Tomás de Aquino. Para essa obra formidável, precisa impor um pensamento uniformizado, um consenso, uma consciência nova.
“(...)
“Bem hajam, pois, os que interpretam com segurança e defendem com ardor o pensamento puro da Ação Integralista, dentro do culto de  obediência ao Chefe Nacional. Talvez a primeira palavra de nossa doutrina seja – Disciplina -. Essa disciplina começa por ser disciplina espiritual.
Σ
Σ       Σ
“A Revolução de 1930 começa perguntando ao Brasil inteiro: - Que é que há?
“Triunfante, a Revolução respondeu à sua própria pergunta com a famosa frase lamatineana: - “O Brasil é um deserto de homens e de idéias”.
“Reflexo do mal-estar que lavrara no país, mal-estar privativo dos regimes liberais democráticos, em que a soberania da nação se dilui diante da soberania dos grupos políticos e econômicos, o movimento de 1930 não trazia consigo um corpo de doutrina e, por isso, se não desenvolveu em lineamentos e diretivas seguros. Mas quebrou os velhos quadros políticos que emolduravam a Nação e, por isso, podia permitir a eclosão duma ação baseada numa ideologia que consultasse as verdadeiras realidades brasileiras. Esse anseio nacional teve um intérprete, Plínio Salgado, e a sua palavra nova despertou as energias dum novo Brasil, no Manifesto de Outubro de 1932, quando, ainda com o sangue quente da mocidade paulista derramado nas trincheiras do vale do Paraíba, os políticos liberais faziam acordos e conchavos.
“Palavra nova de tempos novos, o Evangelho Integralista trouxe ao Brasil desunido e em guerra a esperança de um futuro melhor. A mocidade, que, minada pelo extremismo moscovita ou em plena disponibilidade doutrinária, presa do pragmatismo e do ceticismo, resvalara para as fileiras dos inimigos da Pátria, exploradores vis do seu idealismo, viu como que acender-se nas trevas do horizonte o farol denunciador do seguro porto.
“Poucos foram os que acudiram ao chamamento patriótico do Chefe Nacional; mas as suas fileiras engrossaram a pouco e pouco; e hoje há uma maravilhosa floração de camisas verdes sobre a vasta extensão da terra brasileira! Sangram os pés dos Integralistas nos agudos espinhos semeados à sua passagem; um fio de sangue marca a sua caminhada desde Bauru, a Meruóca e a Praça da Sé, até as matas do Espírito Santo, os pampas do Rio Grande, os vales catarinense e as ruas de Campos. Os régulos os perseguem. A calúnia e a inveja mordem-lhes os calcanhares. A marcha triunfal do sacrifício prossegue na lenta construção do Brasil-Integral, desafiando as forças ocultas e aparentes do Anti-Brasil.
“Nunca nos anais de nossa vida política nacional um documento produziu tamanho movimento de homens e de idéias, resposta magnífica do Espírito Brasileiro à pergunta ansiosa da Revolução de 1930. Nunca um pedaço de papel transformou de tal modo o sentido da nossa existência nacional. Nunca um grito de alarma despertou mais promissoras e audazes energias.
“(...)
“A palavra de Plínio Salgado ensinou os brasileiros de boa vontade a querer e a saber o que querem”[28].
Alonguei-me em demasia, reconheço e peço desculpas aos presentes pelo excesso, porém, antes de encerrar, uma última citação de Gustavo Barroso, que calha como uma luva nestes tempos em que vemos nosso amado Brasil dividido politicamente entre uma direita asquerosa e uma esquerda repulsiva, onde profeticamente nos orienta em meio ao lodaçal da falsa vida política nacional: 
“O Integralismo é congregação de energias, de forças criadoras, de valores  positivos, de fatores de civilização, de sentimentos nacionais, de sacrifícios pessoais; de atividades definidas, de elementos morais e sociais; é a negação e o combate às doutrinas unilaterais; é a recusa de desviar-se para a Direita ou para a Esquerda e o imperativo categórico de caminhar para a Frente, de olhar para a Frente, (...)”, e mais adiante reforça:
“Somos a palavra e a ação dum Brasil novo que se levanta, desperto do torpor da politicagem, resolvido a caminhar para a Frente no sentido de suas próprias forças criadoras, desprezando as teorias mortas da Direita e não prestando ouvidos às tentações das teorias falsas da Esquerda”[29].
Pelo Bem do Brasil!
Anauê!

* Este trabalho deveria ter sido lido na Solenidade Comemorativa dos 124 anos de de nascimento de Plínio Salgado, realizada em São Paulo, em 26 de Janeiro de 2019. No entanto, dificuldades insuperáveis impediram-em de comparecer à Homenagem. 


NOTAS:
[1] VASCONCELLOS, Sérgio de. Integralismo: um novo paradigma. Vol. I. Rio de Janeiro: Agbook, 2014; pág. 92 e segs.
[2] VASCONCELLOS, Sérgio de (Org.). Integralismo: Documentos Oficiais – Vol. I – Pré-Integralismo (1926 – 1932). Rio de Janeiro: AgBook, 2018.
SALGADO, Plínio. O Soffrimento Universal. 1ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1934.
SALGADO, Plínio. A Quarta Humanidade (1934). 5ª edição. São Paulo/São Bento do Sapucaí: GRD/Espaço Cultural Plínio Salgado, 2005.
SALGADO, Plínio. Despertemos a Nação! 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1935.
SALGADO, Plínio. Literatura e Política (1927). 2ª ed. São Paulo: Editora das Américas, 1956. Vol XIX da Obras Completas de Plínio Salgado.
[3] VASCONCELLOS, Sérgio de. Gustavo Barroso (2008). Em: http://oquartoimperio.blogspot.com/2013/12/gustavo-barroso.html  Acessado em 22 de Janeiro de 2019.
[4] BARROSO, Gustavo. O Integralismo em Marcha. 1ª edição. Rio de Janeiro, Schmidt, 1933; p. 11.
[5] BARROSO, Gustavo. O que o Integralista deve saber. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935; p. 17.
[6] BARROSO, Gustavo. O Integralismo e o Mundo. 1ª edição. Rio de Janeiro:  Civilização Brasileira, 1936; p. 40.
[7] BARROSO, Gustavo. Espírito do Século XX. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 168.
[8] BARROSO, Gustavo. Espírito do Século XX. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 171 e 172.
[9] BARROSO, Gustavo. A Palavra e o Pensamento Integralista. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 7.
[10] BARROSO, Gustavo. A Palavra e o Pensamento Integralista. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 56.
[11] SALGADO, Plínio. A Doutrina do Sigma. 2ª edição. Rio de Janeiro, Schmidt, 1935, pg. 13 e segs.
[12] SALGADO, Plínio. Palavra Nova dos Tempos Novos (1936). 3ª edição. São Paulo: Panorama, 1937, p. 51 e segs.
[13] BARROSO, Gustavo. A Palavra e o Pensamento Integralista. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 53.
[14] BARROSO, Gustavo. Espírito do Século XX. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 158.
[15] BARROSO, Gustavo. A Sinagoga Paulista. 3ª edição. Rio de Janeiro: ABC, 1937; p. 66.
[16] BARROSO, Gustavo. Integralismo e Catolicismo. 1ª edição. Rio de Janeiro: ABC, 1937; p. 5.
[17] BARROSO, Gustavo. Integralismo e Catolicismo. 1ª edição. Rio de Janeiro: ABC, 1937; p. 31 e 32.
[18] BARROSO, Gustavo. O Integralismo de Norte a Sul. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935; p. 45.
[19] SALGADO, Plínio. A Quarta Humanidade (1934). 5ª edição. São Paulo/São Bento do Sapucaí: GRD/Espaço Cultural Plínio Salgado, 2005.
[20] BARROSO, Gustavo. O Quarto Império. Rio de Janeiro: José Olympio, 1935.
[21] BARROSO, Gustavo. O Quarto Império. Rio de Janeiro: José Olympio, 1935; p. 147.
[22] BARROSO, Gustavo. O Integralismo e o Mundo. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 222.
[23] SALGADO, Plínio. Cartas aos Camisas Verdes. Rio de Janeiro: José Olympio, 1935; p. 9 e segs.
[24] BARROSO, Gustavo. O que o Integralista deve saber. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935; p. 111, 112 e 113.
[25] BARROSO, Gustavo. Espírito do Século XX. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936; p. 18 e 19.
[26] BARROSO, Gustavo. Reflexões de um Bode. 1ª edição. Rio de Janeiro: Gráfica Educadora, 1937; p. 166.
[27] BARROSO, Gustavo. Reflexões de um Bode. 1ª edição. Rio de Janeiro: Gráfica Educadora, 1937; p. 169 e 170.
[28] BARROSO, Gustavo. Reflexões de um Bode. 1ª edição. Rio de Janeiro: Gráfica Educadora, 1937; p. 173, 174, 175, 176, 177 e 178.
[29] BARROSO, Gustavo. O Integralismo de Norte a Sul. 1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935; p. 69 e 75.

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